Em Boa Vista (RR), o Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (SJMR Brasil) realizou, durante o mês de agosto, encontros com moradores e lideranças da comunidade João de Barro para a construção do Plano de Vida Comunitário. A iniciativa busca fortalecer a organização, a autonomia e o protagonismo local na definição de estratégias para ampliar o acesso a direitos e enfrentar desafios de proteção.
Nos dias 4, 11, 20 e 25 de agosto, foram realizadas atividades de diagnóstico participativo, cartografia social, resgate da memória comunitária e mapeamento de riscos, fatores de proteção e capacidades locais. O levantamento dará base às próximas etapas do trabalho.
A iniciativa segue os princípios da Proteção Baseada na Comunidade, que incentiva a participação dos próprios moradores na identificação dos problemas e na construção das respostas. O trabalho considera as necessidades locais e, ao mesmo tempo, os recursos e as redes de apoio já existentes.
A história de João de Barro foi um dos pontos trabalhados nos encontros. A comunidade é formada por famílias que anteriormente passaram pela ocupação Ka Ubanoko e chegaram ao atual território a partir de 2020.
Por meio de uma linha do tempo, os moradores reconstruíram acontecimentos importantes dessa trajetória, relembrando dificuldades enfrentadas e formas de organização e apoio mútuo desenvolvidas ao longo dos anos.
A cartografia social permitiu registrar diferentes percepções sobre o território. Crianças, mulheres e homens apontaram dificuldades relacionadas ao acesso à saúde e à escola, transporte e infraestrutura, além de situações de xenofobia e discriminação vivenciadas por crianças no ambiente escolar.
Na atividade “Comunidade dos Sonhos”, os participantes também representaram como gostariam que fosse o lugar onde vivem. Entre os elementos apontados estavam moradia adequada, serviços de saúde, escola, transporte público, segurança e espaços de lazer.

“Construir esse plano junto com a comunidade é importante porque partimos daquilo que os próprios moradores identificam como prioridade. Nosso papel é criar espaços de escuta e diálogo, fortalecer as capacidades que já existem no território e apoiar a comunidade para que ela tenha cada vez mais autonomia na busca por seus direitos e na construção de soluções coletivas”, explica Jailton Caetano, analista social do SJMR Brasil e ponto focal de proteção no escritório de Boa Vista (RR).
Entre as demandas identificadas estão regularização documental, atualização do Cadastro Único, acesso ao Sistema Único de Saúde (SUS), segurança, espaços de convivência para jovens, enfrentamento à xenofobia e à discriminação, transporte público, infraestrutura e fortalecimento das lideranças.
A partir desse levantamento, serão definidas as prioridades e responsabilidades, considerando as ações que podem ser desenvolvidas localmente e aquelas que dependem da articulação com serviços públicos e organizações parceiras.

As mulheres têm participação importante na organização comunitária e nas iniciativas relacionadas ao cuidado e à proteção das famílias. Desde os primeiros diagnósticos realizados em João de Barro, elas têm presença expressiva nas atividades comunitárias. Segundo Jailton, “essa participação também evidencia desafios específicos relacionados à desigualdade de gênero e às responsabilidades de cuidado”.
No Plano de Vida Comunitário, entre as prioridades relacionadas a esse público estão a saúde da mulher e a dignidade menstrual, a prevenção das violências e o fortalecimento da autonomia. Também está prevista a criação de um Comitê Comunitário de Proteção, com protagonismo de mulheres da comunidade.
As próximas etapas incluem a formação de lideranças e a realização das ações priorizadas, seguidas do monitoramento e da avaliação dos resultados.