Os projetos Ler e Tecer encerraram o primeiro semestre de 2026 nos dias 3 e 4 de julho, reunindo estudantes, voluntários e parceiros em momentos de celebração que marcaram mais uma etapa do Curso de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira.
Desenvolvidos em parceria entre a Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e o Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (SJMR), os projetos oferecem formação em português para migrantes e refugiados, do nível básico ao intermediário através da metodologia Português como Língua de Acolhimento (PLAc) de ensino.
Ao longo do semestre, 528 pessoas demonstraram interesse em participar das aulas. Desse total, 263 estudantes ingressaram nas turmas do Projeto Tecer, coordenado pela área de Meios de Vida do SJMR em Belo Horizonte.
Uma das novidades desta edição foi a ampliação da oferta de turmas. Foram ofertadas dez classes, sendo quatro presenciais e seis on-line. As aulas presenciais ocorreram aos sábados, na PUC Minas – Campus Lourdes, com divisão entre hispanofalantes e não hispanofalantes e entre os níveis A1 e A2 de proficiência. Já as turmas virtuais foram distribuídas ao longo da semana, ampliando o acesso de estudantes de diferentes localidades.
O semestre reuniu participantes de mais de 12 nacionalidades, entre elas Venezuela, Marrocos, Cuba, Colômbia, Peru, Chile, Bolívia, Afeganistão, Equador, Síria, Índia e Estados Unidos. Com idades entre 18 e 79 anos, os estudantes encontraram nas aulas um espaço para desenvolver a comunicação em português e fortalecer sua integração à sociedade brasileira.
Como parte das atividades complementares, os participantes visitaram o Museu da Moda de Belo Horizonte, em uma experiência de imersão cultural, e participaram de uma palestra sobre regularização documental e naturalização, ministrada por Thaís Albuquerque, analista social da área de Proteção Jurídica do SJMR.
O encerramento ocorreu em dois momentos. No dia 3 de julho, as turmas on-line participaram de um encontro virtual com o tema “Festas Culturais”, estabelecendo conexões entre as festas juninas brasileiras e celebrações tradicionais de seus países de origem. No dia seguinte, estudantes, voluntários e parceiros reuniram-se na PUC Minas – Campus Lourdes para um Café Julino, que proporcionou um momento de convivência e acolhimento, especialmente para alunos afetados pela situação enfrentada pela Venezuela no fim de junho.
A iniciativa contou com o apoio da Diretoria de Políticas para a População em Situação de Rua, Migrantes e Refugiados (DPOP), responsável pelo fornecimento de vales-transporte aos estudantes das turmas presenciais. O Supermercado Verde Mar também apoiou o projeto com doações semanais de lanches distribuídos durante os encontros.
Os resultados do semestre também refletem o trabalho dos mais de 36 voluntários que atuaram como professores e monitores. Vindos de Belo Horizonte, São Paulo, Teresina, Boa Vista e outras cidades, eles prepararam aulas, acompanharam estudantes e ajudaram a construir um ambiente de acolhimento para pessoas que chegaram recentemente ao Brasil.
Migrante venezuelana e voluntária do Projeto Tecer desde 2024, Maryhen José Melendez Ocanto atua como professora da turma presencial para hispanofalantes. A experiência de quem também vivenciou o processo migratório influencia sua forma de ensinar.
“Não se trata só de dar uma aula de português. Trata-se também de reforçar a rede de apoio que os migrantes podem acessar e mostrar ferramentas para enfrentar esse processo migratório, que costuma ser complicado.”
Além de contribuir para que os estudantes conheçam seus direitos e tenham mais autonomia para enfrentar os desafios da migração, Maryhen conta que a experiência no projeto também marcou sua formação como professora. “Entendi que quero ser uma professora empática, que compreende que a sala de aula vai muito além daquele espaço.”
Formada em Relações Internacionais, Carolina de Lima Montela conheceu o SJMR em ações voltadas à população migrante e, desde 2025, atua como professora voluntária em uma das turmas on-line do Projeto Tecer.
Para ela, o principal diferencial do projeto é compreender o ensino de português como uma ferramenta de acolhimento e autonomia, que vai além da aprendizagem da língua. “Aprender uma língua é também compreender o contexto em que se vive, conhecer seus direitos, criar vínculos e sentir-se pertencente.”
A voluntária afirma que a convivência com estudantes de diferentes nacionalidades também ampliou sua compreensão sobre a interculturalidade e reforçou a importância do diálogo entre culturas.
“Os migrantes também transformam a sociedade que os recebe. Eles trazem novos conhecimentos, culturas, histórias e formas de enxergar o mundo. Quando existe abertura para esse encontro, todos aprendem e todos crescem.”