Voluntariado e ajuda humanitária em tempos de pandemia

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Fernando Arnal Calvo, voluntário da ONG Entreculturas da Espanha, integra a equipe do SJMR Boa Vista e tem vivenciado uma experiência intensa de voluntariado, neste período de pandemia do Covid-19.

Desde que chegou ao Brasil, em dezembro de 2019, o espanhol Fernando Arnal Calvo (37), se tornou um reforço importante na equipe do Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiado de Boa Vista (RR). Voluntário do VOLPA, programa internacional de voluntariado da ONG espanhola “Entreculturas”, Fernando tem acompanhado diversas ações e intervenções de proteção social para migrantes venezuelanos em situação de vulnerabilidade, durante este momento de pandemia.

Apesar dos atendimentos presenciais no SJMR Boa Vista estarem suspensos, devido às medidas de distanciamento social para combater a proliferação do Covid-19, a instituição tem mantido uma resposta emergencial aos migrantes venezuelanos e prestado apoio, especialmente as populações mais vulneráveis.

Fernando tem apoiado diversas ações de ajuda humanitária do SJMR para migrantes que vivem em ocupações de Boa Vista, em situação de alta vulnerabilidade, sobretudo, no combate a insegurança alimentar e assistência à saúde.

Voluntariado na pandemia

Assim que surgiram os primeiros casos de Covid-19 no Brasil, várias medidas para combater a proliferação do vírus foram tomadas, entre elas, o fechamento das fronteiras. Foi nesse momento, Fernando teve que decidir se continuava o voluntariado no SJMR Boa Vista. “Foi uma situação difícil, decidir se ficava no Brasil ou retornava à Espanha. Mas para tomar a decisão, me lembrei do motivo que me trouxe ao voluntariado. Se eu buscava compartilhar experiências com realidades diferentes e meu propósito era atuar num contexto de vulnerabilidade, não seria coerente retornar, mesmo com toda essa situação imprevista”, relembra Fernando.

Na contramão da pandemia, Fernando tem acompanhado as dificuldades que o país enfrenta nas ações para combater a proliferação da doença, sobretudo entre as populações mais vulneráveis como os migrantes que vivem em ocupações e indígenas venezuelanos, o que impõe desafios adicionais a um contexto já emergencial.

“Como orientar essas pessoas a ficarem em casa, sendo que muitas não têm onde morar? Como dizer para que desinfetem tudo e lavem bem as mãos, as roupas, se não tem acesso a água e sabão?”
Fernando Arnal Calvo – Voluntário Entreculturas

Experiências que transformam

Fernando é psicólogo por formação e já havia trabalhado por um ano, na Cruz Vermelha da Espanha, com migrantes africanos. Sua irmã, Beatriz Arnal, em 2015 realizou uma experiência de voluntariado por meio do mesmo programa em Uganda – África. Na ocasião, ela também se dedicou ao atendimento de pessoas migrantes no Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados, na cidade de Kampala.

Fernando e a irmã, Beatriz Arnal, durante voluntariado no Serviço Jesuíta a Migrantes em Uganda.

Assim, Fernando teve oportunidade de acompanhar um pouco da formação prévia da irmã e, ainda, visitá-la por um mês, vivenciando e observando o cotidiano de um voluntariado com pessoas migrantes e refugiadas. “Sempre gostei de viajar, mas buscava uma oportunidade de ser útil, ajudar as pessoas e realizar uma experiência com sentido. A partir da visita à minha irmã, comecei a buscar formas de fazer algo parecido. Com voluntariando VOLPA tive uma possibilidade de retomar à África, mas também surgiu a oportunidade de participar de um projeto mais estruturado, na área de migrações, aqui Brasil”, relata o voluntário.

Fernando com alunos em Kumasi, Ghana, durante experiencia de voluntariado.

Fernando conta que as experiências com a migração na Espanha foram bem diferentes da realidade vivenciada aqui no Brasil. “Na Espanha e na Europa, em geral, é bem complicado para o migrante regularizar sua situação, sobretudo se veio de forma irregular. E essa questão foi o que mais me surpreendeu no Brasil. No contexto dos venezuelanos, com todo o suporte da Operação Acolhida, que conta com parceiros como o SJMR, no primeiro dia, o migrante já tem direito a trabalhar e acessar o sistema de saúde. Isso é um grande apoio para quem está buscando um novo recomeço”, ressalta.

Nesses seis meses no Brasil, embora ainda esteja em vigor as medidas de distanciamento social, Fernando ressalta que a equipe local o ajudou a entender melhor o contexto da migração venezuelana e a ter uma visão ampliada das ações do SJMR em Boa Vista e no Brasil.

Apesar de destacar a facilidade de acesso à documentação para a integração local, para o voluntário, o mais importante na ajuda humanitária de um processo migratório é o resgate da dignidade humana. “O SJMR se tornou uma organização de referência, pois possibilita o resgate da dignidade, para que essas famílias continuem a sonhar com seus projetos de vida. O Programa de Interiorização, onde muitos migrantes já seguem para outros estados com trabalho ou apoio para se inserirem no mercado, além do acesso à saúde, do retorno dos filhos à escola, é um suporte fundamental para o início de uma nova vida. São oportunidades que não tiveram no seu país de origem. É mais que um papel, que um documento, é a a possibilidade de transformar essa situação de vulnerabilidade em uma chance real de um futuro para a família”, enfatiza Fernando, que tem acompanhado histórias de muitos migrantes venezuelanos interiorizados pelo SJMR.

No SJMR Boa Vista, Fernando faz parte da equipe de proteção documental. Na foto, Luis Zamora, Debora Meireles e Luis Hoyos trabalham juntos com Fernando, na atenção a migrantes venezuelanos.

Fernando ainda não sabe o que o futuro lhe reserva, mas comenta que a experiência na área migratória abre um novo campo de possibilidades, inclusive na vida profissional. “Me sinto bem nessa área e seria muito bom continuar me dedicando às migrações. Por ser psicólogo, sinto que posso cobrir necessidades que não estão sendo vistas no momento, devido a tantas vulnerabilidades. Sem expectativas, vamos esperar o que está por vir”, finaliza.

Entre as situações mais desafiadora de sua experiência em Boa Vista, Fernando relembra o contexto das famílias com crianças em situação de rua e as que são acolhidas pelo abrigo temporário da Operação Acolhida, localizado atrás da rodoviária.

Voluntariado VOLPA – Entreculturas

O Entreculturas é uma ONG da Companhia de Jesus sediada na Espanha, que assumiu a missão de trabalhar na construção de uma nova cultura alicerçada na solidariedade e na transformação social, por meio da educação.
Há 25 anos realiza o Voluntariado Internacional de Entreculturas (VOLPA) e milhares de voluntários, como Fernando Arnal, já realizaram serviços em diversas partes do mundo.

Marta, Fernando e Marta, voluntários VOLPA no Chile, Brasil e Bolívia.

Por Janaina Santos – Comunicação SJMR Brasil

Comentários
  • TERIDA DEL VALLE GUANIPA MUNOZ
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    Gracias por compartir la experiencia. Um cálido abrazo y Ânimo en tu caminhada por está experiencia en el Brasil.

  • luis gabriel zamora
    responder

    Imagino por lo que estás pasando hermano con esta gran experiencia de vida, y es para mi un verdadero placer haber conocido y trabajar con una persona tan humanitaria como lo es Fernando Arnal. hermano y gran amigo de grandes desafíos no es fácil decidir quedarse para enfrentar esta situación juntos mas es una experiencia que jamás olvidarás, gracias a ENTRE CULTURAS (ESP) por tan valioso aporte de verdad complacidos.
    Continuamos en la lucha amigo estamos juntos, como dice una gran amiga “Ninguém Faz Nada Sozinho”

    Abrazos y Agradecimientos.

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