Eduardo Mossri, ator de Órfãos da Terra, compartilha as vivências de voluntariado no SJMR

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Quando encerraram as gravações da novela “Órfãos da Terra”, o ator Eduardo Mossri que viveu o médico sírio Faruq, ainda trazia latente a experiência de encenar a história de um refugiado e sentiu a necessidade de adentrar mais no universo das migrações e do refúgio. “Encontrei-me com Pe. Paolo Parise da Missão Paz, que acolhe migrantes e que já havia me ajudado no processo de preparação para a novela. Falei da minha vontade de uma maior imersão no contexto migratório e ele me sugeriu ir a Boa Vista. Assim, me colocou em contato com o Pe. Agnaldo, e, em pouco tempo, já fui recebido pela equipe incrível do Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados de Boa Vista. Iniciava, portanto, a impactante experiência de um mês de voluntariado na fronteira”, conta.

Eduardo Mossri realizou um mês de voluntariado no SJMR Boa Vista. Na novela “Órfão da Terra”, ele viveu o médico sírio Faruq, que perdeu toda a sua família na guerra e se mudou para o Brasil. Na trama, o refugiado também buscava o reconhecimento do seu diploma de medicina.

Assim que iniciaram as atividades, Eduardo se deparou com a realidade do contexto migratório na fronteira.  “Era um exercício diário de lidar com a impotência, manejando a frustração onde muito se tem a fazer, mas que por vezes, nem sempre se consegue fazer. Mas sem nunca deixar de se sentir alimentado por uma enorme esperança junto à uma grande equipe empenhada na real ajuda ao próximo”, relata o ator que é descendente de libaneses.

Eduardo acompanhou várias atividades diárias realizadas pela equipe do SJMR Boa Vista, e presenciou situações de vulnerabilidade extrema, entre elas o drama das crianças migrantes e em situação de refúgio, nos em abrigos e ocupações. “Me deparei com uma realidade impactante: mais da metade das pessoas em situação de refúgio são crianças. Como vão crescer essas crianças? O que está sendo ofertado para o mundo, se considerar que elas são o futuro desse tal mundo? Pessoas crescidas quebradas, com medo e lacunas afetivas, muitas sem escolaridade e com vasto déficit de compreensão. Pessoas sofrendo não pode ser problema dos outros, pessoas sofrendo é um problema de todos, ainda mais quando são crianças. Ninguém deveria ser colocado na vida adulta, sem antes ter tido uma boa infância”, relata o voluntário que esteve visitando abrigos, ocupações e também acompanhou as atividades lúdicas do “Palhaços Sem Fronteiras”.

“Sai barulho seco de pedra pisada, entra o som do acordeão, flauta e chocalho. Cinza perde força para cores fortes. O riso em um lugar difícil de imaginar que poderia estar, desavergonhadamente invade, amplifica e fica durante uma hora de apresentação. Quase como se lembrasse para aquelas crianças e adultos em situação refúgio e de vulnerabilidade, que elas podem esquecer disso por alguns minutos, porque naquele momento gargalhar é prioridade. ”

Eduardo Mossri – Apresentação dos Palhaços Sem Fronteiras nos abrigos

As experiências de voluntariado também rederam a participação na Roda de Conversa “Troca de saberes e análise do contexto migratório entre Venezuela e Brasil”, organizada pelo Grupo de Estudo Interdisciplinar sobre Fronteiras (GEIFRON) da Universidade Federal de Roraima UFRR. Eduardo pôde compartilhar suas experiências nos trabalhos realizados com o tema da migração e refúgio na novela “Órfãos da Terra” e no espetáculo “Cartas Libanesas”. “Participei desse evento com a presença de Arturo Peraza Celis, reitor da Universidade Católica Andres Bello da Cidade de Guayana/ Venezuela – UCAB e dos representantes das principais agências que atuam em Boa Vista. Além da importância desses espaços de discussão e do papel da educação, o poder da troca e do compartilhar, como fortalecimento do olhar do outro, no fundo é sempre e só sobre isso que estamos falando: a escuta e a sensibilização do olhar ao outro”, comenta Eduardo.

Paulistano de 37 anos, Eduardo Mossri é veterano do teatro com atuação em mais de 20 peças. Foi premiado com o monólogo “Cartas Libanesas” (foto a esquerda), que conta a história da migração sírio-libanesa, durante a Primeira Guerra Mundial, e é uma peça inspirada em cartas de seus avós e sírios que imigraram para o Brasil. A direita, atuação na novela Órfão da Terra, da Rede Globo, como o médico sírio Faruq. Experiências que o levaram ao voluntariado no SJMR Boa Vista.(Foto: Felipe Stucchi e Gshow)

Entre a vasta gama de pessoas que estão em situação de refúgio, há lésbicas, gays, bissexuais e transexuais, e para elas e eles, o acolhimento também se faz merecido. O merecimento não está no gênero, mas sim na condição humana, todos são iguais, ou pelo menos é como deveria ser em condições favoráveis, mas em condição de refúgio, para essa comunidade, tudo se torna ainda mais difícil. O abraço se faz necessário, porque na escala de vulnerabilidade, para essas pessoas onde o ato de simplesmente ser quem são, as tornam mais propensas ao risco de vida.

Eduardo Mossri

A experiência no SJMR Boa Vista

Com essa experiência de voluntariado, Eduardo acredita que o trabalho realizado pelo  SJMR em Boa Vista está ajudando a transformar a realidade de vida de muitas pessoas.  “Com uma equipe dedicada e empenhada na prestação de diversos serviços, acredito que devolver a dignidade a pessoas em situação de refúgio seja o maior trabalho realizado por eles. Somado a isso, a assimilação da riqueza da diversidade humana,– isso se dá também na equipe – em um grupo onde tem venezuelanos, colombiano, peruana, hondurenho, espanhóis e brasileiros (dos mais diversos estados) trabalhando e falando em suas línguas e todos se fazendo ser entendido, comprovando que é uma causa urgente e que necessita de amparo, virá sempre em primeiro lugar. Aqui o princípio cristão de ajuda e compaixão ao próximo é colocado em ação, mais do que em palavras, porque aqui a vida chama, e um dia vira meses diante da intensidade da experiência vivida”, finaliza Eduardo Mossri.

“Meu profundo respeito e agradecimento a toda essa equipe pelo trabalho que realizam e do acolhimento dedicado a mim, serei sempre semente para levar o conhecimento adquirido em terras roraimenses”. (Eduardo Mossri)

A Experiência do Voluntariado
“O homem que foi, não foi o homem que voltou. Um homem, paulistano, ator, branco, classe média e um chamado. Um chamado me chamou para ser tocado pela dor do outro, guardei a minha e fui.
Quem tem alguma dor, pode já ter vivido a minha, mas quem tem a dor da ausência de sua terra, já viveu todas as dores. A essas pessoas, que se continue o trabalho. Desejo que não precisem por muito mais tempo, porque se precisar é sinal que as coisas não vão bem.
Mas se considerarmos que imigração, exílio e refúgio existem desde que o mundo é mundo, só mudando o tempo e o motivo, esse trabalho e essa luta terão de seguir por muito tempo.
Só desejo, se possível fosse pedir, que esse processo pudesse ser mais gentil, que as pessoas possam tomar mais conhecimento do que acontece com os outros: dividir responsabilidades, é isso, gente sofrendo é de responsabilidade de todos, ainda mais agora quando um vírus nos obriga a rever quem somos e a forma como nos relacionamos com o outro. Nada mais será como antes e espero que não.
Que seja por essa causa, que seja por outra, não importa qual, mas que seja por alguma causa que ajude alguém em algum lugar. Porque atores somos todos, já cidadãos, mais do que viver em sociedade, são aqueles que a transformam.
Agradecimento especial ao Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (SJMR) que me acolheu tão bem”.

Eduardo Mossri

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