Celebrações com migrantes encerram as últimas atividades de 2020 do SJMR Belo Horizonte

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Em todos os cantos do salão da Igreja da Boa Viagem, no Centro de Belo Horizonte, via-se crianças brincando com seus novos brinquedos no último sábado, 19 de dezembro. Elas não controlaram a curiosidade em saber qual foi o presente ganho durante encontro com migrantes promovido pelo SJMR Belo Horizonte. A finalidade da ocasião foi celebrar o dia do mundial migrante, comemorado em 18 de dezembro, e o próximo natal. Assim, o SJMR de BH concluiu suas atividades neste ano. 

A instituição convidou 50 famílias, em sua maioria venezuelanas, para assistir no salão paroquial da Igreja Boa Viagem o Festival Tantos Somos, Somos Um, realizado pelo SJMR Brasil em parceria com a Red Jesuita con Migrantes Latinomérica y el Caribe. Logo após a transmissão do evento, passou-se para a confraternização; houve um lanche, entrega de cestas de natal às famílias e presentes às crianças e adolescentes. 

Celebração de Natal contou com a exibição ao vivo do Festival Tantos Somos, Somos Um.

Marcou presença no evento, Kaivis Isaías Caldera, de 29 anos, e família. Com o evento ele pôde matar um pouco da saudade de sua terra, a Venezuela. Afinal, o Tanto Somos, Somos Um mostrou apresentações artísticas venezuelanas e de outros países. Além disso, se encontrou com seus compatriotas. Os venezuelanos nos últimos dois anos, sobretudo, estão vindo em grande número para o Brasil e a Minas Gerais consequentemente. Por esse fato, a maioria das famílias presentes no sábado era do país vizinho. 

Kaivis e sua família estão a dois anos no Brasil.

Crise na Venezuela

A nação vizinha enfrenta uma grave crise econômica interna, agravada por embargos internacionais. O bolívar, moeda oficial, perde valor frente ao dólar cotidianamente; até setembro a inflação acumulada de janeiro a agosto era de 1 mil%, conforme informações publicadas na imprensa brasileira. Para efeitos de comparação, entre novembro de 2019 ao mesmo mês deste ano 4,31% foi o acúmulo de preços médios no Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Dados da ONU afirma que a partir de 2015 4,7 milhões de venezuelanos deixaram o país. Levando em conta que naquele ano a Venezuela tinha cerca de 30 milhões de habitantes aproximadamente 15% da população migrou-se. 

“Graças a Deus o Brasil abriu muito as portas para nós. A situação no meu país não estava nada boa para mim e minha família. Por agora não pretendo retornar. É por isso também que estive aqui hoje conversando com a equipe do SJMR: porque daqui há pouco tempo eu vou ter que renovar minha autorização de residência”, relatou Kaivis. Ele a esposa, três filhas, sendo uma nascida aqui, e um enteado, estão no Brasil a dois anos. Em Belo Horizonte, se encontram há menos de um mês. A autorização de residência deles vencem em 27 de janeiro. 

Com um português afinado, mas carregado de sotaque espanhol, Kaivis ainda conta que é formado em técnico mecânico; na capital mineira, procura emprego em qualquer área. “Sei fazer de tudo: sou pedreiro, já trabalhei em fazenda… E ahh, também quero tirar minha carteira de habilitação brasileira. A que tenho é venezuelana”, completou. 

Família venezuelana warao atendida pelo SJMR Belo Horizonte.

“Eu vim para cá também por causa da situação do meu país (a Venezuela). Vocês foram muito acolhedores. Atualmente sou residente. E hoje foi muito bom eu ter vindo aqui, encontrei meus colegas…”, contou Samuel Medina, médico de 27 anos. Ele está em BH há nove meses. No país vive há 1 ano e quatro meses. 

Atenção humanitária à comunidade haitiana de BH e região

Com a ajuda do SJMR, o haitiano Jean Lubin de 32 anos já possui sua habilitação para dirigir. “Eu penso em me tornar um motorista de Uber”, disse. Ele está com a esposa e dos dois filhos em BH há quatro anos e quatro meses; há cinco está no Brasil. Além de um carro para se tornar motorista de aplicativo, Jean ainda pretende conseguir seu certificado Celpe-Bras, título emitido pelo Ministério da Educação que certifica a proficiência em Português. 

“Eu vim para o Brasil porque a situação em Haiti não está boa. Tudo aqui está bem para nossa família. Falta em conseguir um emprego com uma remuneração melhor e minha esposa aprender o português. Mas aqui está muito bom para nós. Por exemplo, a saúde e escola aqui são de graça”, disse Jean. 

O Haiti é outro país que nos últimos anos enfrenta uma delicada situação econômica e política. Um terremoto devastou sobremaneira a nação em 2010. Para se ter uma dimensão dos resultados desse fenômeno natural, até as instituições governamentais foram destruídas; o próprio governo ficou de mãos atadas diante da conjuntura. De modo a piorar o quadro dramático, em 2016 um forte ciclone atravessa o país.   

Migração em Minas Gerais

De acordo com as informações mais atualizadas do Observatório das Migrações Internacionais de Minas Gerais (OBMinas) de 2018, o número de migrantes no estado foi de 35,6 mil. A grande parte deles, 3,2 mil são haitianos, em seguida estão os colombianos 1,9 mil e italianos 1,8 mil. Com a intensa vinda de venezuelanos a partir desse ano, tudo leva a crer que essas estatísticas se modificaram. Os cidadãos de Venezuela podem ser hoje em dia os mais acolhidos pelos mineiros. 

Parceiro da Rede Acolhe Minas tem articulado as ações humanitários e de inserção local para migrantes e refugiados em Minas Gerais.

Em âmbito nacional, de acordo com a Organização Internacional para as Migrações (OIM), da ONU, existem no país 807 mil migrantes, segundo estatísticas de 2019. Ano passado ainda, no mundo, estavam em condições de migração 271,6 milhões de pessoas, das quais 0,4% estão no Brasil. O destino da maior parte de migrantes são os Estados Unidos, onde estão 50 milhões. Também segundo a OIM, existem mais brasileiros fora do país do que migrantes: 1,7 milhão. 

Celebração de Natal

Animou ainda mais o evento de sábado, o papai Noel, que distribuiu presentes angariados pelos funcionários e voluntários do SJMR. Todas as crianças foram presenteadas com mais de um item. Muitas delas não controlaram a curiosidade em abrir apenas em casa as prendas, o que tornou o evento uma festa só. Para todos os lados que se via, a garotada estava curtindo seus novos brinquedos. 

Engrandeceu a ocasião a visita de Diácono Elissandro Santana. Ele fez uma oração que culminou com a canção “Aleluia”, recitada pelas pessoas presentes em português e espanhol. 

Para a confecção do evento sete voluntários atuaram. Entre eles esteve Patrícia Cardoso Martim. Pela entidade, ela oferece aulas de português aos indígenas venezuelanos, os Waraos. No sábado, ela ajudou com o lanche e parte dos brindes. “Eu acho que o sentido da vida é doar um pouco de si ao próximo. Talvez eu só tenha amor… então, que seja amor. Eu costumo dizer que a minha terapia é dar aulas para eles (os migrantes). Eu amo ver quando algum deles me diz (em português): ‘Olá, professora. Tudo bem’”, relatou Patrícia que tem vínculo com a instituição jesuíta há quase dois anos. 

O evento de sábado foi uma realização empreendida por muitas mãos: colaboradores e voluntários do SJMR e pela paróquia da Boa Viagem.

“Esse aqui é apenas um evento para reforçar que todos vocês possuem direitos. Nunca podemos nos esquecer disso”, afirmou o coordenador do SJMR BH, Marcelo Lemos. 

Fernando Silva Camargos Barros, voluntária do SJMR desde março deste ano, ajudou, em especial, a angariar os presentes distribuídos. Ela conta que se vinculou à causa migrante quando, no início da pandemia de coronavírus (março de 2020), conheceu uma venezuelana que acabara de dar à luz. “Essa moça não tinha nada. Aí, eu comecei a ajudar ela. Fui encontrando alguns coisas para ela. E descobri que poderia ajudar outras pessoas. Com essa vontade, eu acabei conhecendo representantes do SJMR e me voluntariei para a instituição”, contou Fernanda, que ainda levou sua filha, Eduarda, e seu ex-marido, Marcos Camargos, que interpretou o papai Noel.

“Eu sempre quis trabalhar com Direitos Humanos. Eu fiquei surpresa quando descobri que praticamente perto da minha casa há o SJMR”, conta Jéssica Avelino, que trabalha no setor jurídico da entidade desde outubro. No sábado, ela ajudou na organização do evento. 

Marcos Diegues, atua no SJMR desde agosto. Ele é proprietário de duas residências que acolhe migrantes, no bairro Santa Mônica, na capital. Como conta, ele trabalhou em uma empresa por 23 anos. Ele reuniu seu acerto de demissão e investiu na construção de casas. “Mas não pensava em atender esse público. Está sendo uma grande experiência ajudá-los”, diz. A ajuda dele vai além. Até para assuntos diários ele está se disponibilizando. “Na semana passada, por exemplo, eu ensinei um dos inquilinos a pagar contas na Casa Lotérica”, completou. 

E no sábado, 19 de dezembro, a equipe do SJMR ainda foi em Betim contemplar a confraternização de fim de ano realizada pelas irmãs carmelitas da cidade. A comemoração, cuja presença majoritária também foi de venezuelanos, ocorreu em uma igreja do bairro Bandeirinha. De acordo com uma das irmãs carmelitas, Lady Giovanna, hoje estão no município 80 famílias. “Agradeço muito pela ajuda que o SJMR está nos dando”, disse. Embalou o evento, o cantor venezuelano que no Brasil trabalha como motorista, Franklin Martins. Com seu violão, ele tocou típicas canções venezuelanas. 

Na ocasião, Cristina Requena, colaboradora do SJMR e Marcelo Lemos, concederam sete cartões vouchers de R$ 530 para famílias e de R$ 130 para solteiros. 

*Por Marcelo Gomes – Voluntário do SJMR BH

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