Igreja celebra Alberto Hurtado, santo e advogado que lutou por direitos sociais

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Dirigindo-se aos movimentos sociais em abril de 2020, o papa Francisco, nestes tempos de “tanta angústia e dificuldade”, reafirmou a sua esperança nas “periferias esquecidas” e excluídas da globalização. Conclamou que os “verdadeiros poetas sociais” ousem sonhar um desenvolvimento humano integral voltado ao acesso universal dos chamados três Ts: terra, teto e trabalho.

O pontífice convidou a “uma conversão humanística e ecológica que termine com a idolatria do dinheiro e coloque a dignidade e a vida no centro”. Não se trata apenas de uma proximidade àqueles que são invisibilizados por uma cultura do descarte, mas de uma presença que os reconheça como protagonistas e “construtores indispensáveis dessa mudança urgente”.

O testemunho apaixonado e profético do papa argentino remete a outro companheiro de Jesus: Santo Alberto Hurtado. A Igreja celebra a memória do jesuíta chileno neste dia 18 de agosto. Esse santo contemporâneo teve uma vida curta, porém intensa (1901-1952). Passou à história como um apóstolo incansável, “um fogo que acendeu muitos outros fogos”.

Talentoso, cultivou um coração sensível às questões sociais. “O que quer Deus de mim?”, questionava-se com coragem. O desejo de uma maior radicalidade no seguimento de Jesus pulsava no seu interior. Desde pequeno nunca deixou de se comprometer com os empobrecidos. Mais do que “fazer caridade”, aprendeu a ser solidário com os sofredores de seu tempo

Um dos seus grandes confidentes e amigo de infância, Manuel Larraín, foi uma figura marcante no cristianismo latino-americano. Nomeado bispo de Talca assumirá um papel de liderança na Igreja do continente, como fundador e presidente do Conselho das Conferências Episcopais da América Latina (Celam). Este organismo será fundamental na afirmação de uma fé encarnada que faz uma opção preferencial pelos pobres.

Essas experiências juvenis, certamente, irão influenciar seu modo de proceder como jesuíta. Para dom Manuel Larraín, “o padre Hurtado compreendeu plenamente o que o ensino social da Igreja traz e representa”. Antecipando em alguns anos a renovação do Concílio Vaticano II, “tinha bem claro que o cristianismo ou é social ou não é”.

Apóstolo da juventude, seu testemunho inspirou muitos jovens a abrirem-se a um seguimento ousado e encharcado de esperança. Desde os quinze anos já se sentia chamado a entrar na ordem dos jesuítas. Como assessor nacional da Juventude Católica percebeu a importância de ajudar os jovens a se interrogarem sobre seu futuro e os provocava a terem “uma preocupação especial por estudar sua carreira em função dos problemas sociais próprios de seu ambiente profissional”.

Todavia, as oposições e incompreensões não tardaram a chegar. Setores da sociedade e da Igreja criticavam a “sua falta de espírito hierárquico, sua ingerência em assuntos políticos e suas ideias avançadas em matéria social”. O mesmo tipo dos que hoje criticam o papa Francisco por defender que “uma fé autêntica exige sempre um desejo profundo de mudar o mundo”.

Homem de profunda espiritualidade, foi um procurado orientador de Exercícios Espirituais. Órfão antes de completar os cinco anos, a multidão de crianças vagando pelas ruas deveria incomodá-lo sobremaneira. Em um desses retiros, partilhou suas angústias sobre a desigualdade social na realidade chilena. A partir de suas provocações um grupo de senhoras se juntou a ele para fundarem o “Lar (Hogar) de Cristo”.

Esses “Lares de Cristo” rapidamente se espalharam por todo o país e formaram uma importante rede de proteção às pessoas em situação de rua. Muitas crianças e adolescentes sem-teto foram acolhidos e tiveram suas vidas transformadas com as oportunidades oferecidas.

Cursou Direito na Universidade Católica pelas manhãs e a tarde trabalhava. Além de arranjar tempo para colaborar como professor voluntário no Instituto Noturno Santo Inácio. Viu seu sonho de ser admitido à Companhia de Jesus ser adiado por um tempo para apoiar financeiramente sua mãe. De alguma forma, isso lhe permitiu experimentar a dureza da vida de trabalhador.

Preocupado com a justiça e a caridade cristãs fundou a Ação Sindical e Econômica Chilena (1947). Desejava “despertar nos trabalhadores cristãos a consciência de sindicalizar-se e agrupar os cristãos já sindicalizados, para que com plena formação lutem no interior dos sindicatos por uma visão cristã”. Para dar voz aos operários explorados criou também a revista Tribuna Sindical.

Exímio orador, desinstalava seus ouvintes. Por questionar as injustas estruturas, padre Hurtado foi acusado de ser “comunista”. Sua missão ia além da ação direta pelos empobrecidos. Estava consciente que era preciso promover uma profunda reflexão sobre o tema. Com esse objetivo publicou inúmeras obras, entre elas, Humanismo Social (1947), A Ordem Social Cristã (1948) e Sindicalismo (1950).

O jesuíta chileno se sentiria confirmado com as palavras do papa Bergoglio: “para os cristãos o discernimento dos fenômenos sociais não pode ser independente da opção preferencial pelos pobres”. Afinal, “não é uma opção sociológica, nem moda de um pontificado”, mas “uma exigência evangélica”.

O apóstolo dos trabalhadores proclamou que “pela fé devemos ver Cristo nos pobres”, porque “chegou a hora em que nossa ação econômico-social deve deixar de se contentar com repetir consignas genéricas tiradas das encíclicas dos pontífices e propor soluções bem estudadas de aplicação imediata no campo econômico-social”.

Nos últimos tempos, no Brasil, experimenta-se uma ampla e progressiva retirada de direitos trabalhistas e sindicais. Em 2017 foi aprovada a famigerada “reforma trabalhista” valorizando os contratos individuais em detrimento da Justiça do Trabalho e dos indispensáveis sindicatos. A justificativa era a ampliação dos postos de trabalho.

Contudo, os dados atuais são alarmantes e comprovam que a situação piorou. O país conta com uma taxa de desemprego de 14,7%, ou seja, quase 15 milhões de desempregados. Trata-se do maior índice da série histórica. Acrescida de uma informalidade que fragiliza um enorme contingente.

Recentemente, a Câmara dos Deputados aprovou medida que avança no desmonte dos direitos trabalhistas conquistados ao longo de décadas de luta política. Dentre outros “progressos”, restringe o auxílio-doença, afeta o tempo para aposentadoria e desregulamenta o vínculo empregatício. Isso atinge o direito ao 13º salário e o recolhimento do FGTS.

Como reagiria Santo Alberto Hurtado nesse cenário caótico de retrocessos? Sua vida fala por si e pode-se intuir que ele não se calaria. Cristão consciente e comprometido, chamado a ser fermento na massa, o apóstolo dos empobrecidos lutaria com os trabalhadores. Provavelmente, também sofreria ataques das milícias digitais e seria vítima das fake news questionando a sua ortodoxia cristã.

Mas, as perseguições não seriam suficientes para pará-lo. Talvez respondesse como quando com apenas 51 anos agonizava no hospital, tomado pelo câncer de pâncreas: “que se trabalhe para criar um clima de verdadeiro amor e respeito ao pobre, porque o pobre é Cristo”. Portanto, “é Cristo a quem servem”, insistia.

Para além de quaisquer posições político-ideológicas, seu agir apostólico provinha de uma intensa paixão pela pessoa de Jesus. Essa certeza de trabalhar até o fim pela dignidade dos descartados e excluídos, ardia em seu interior. E o seu único critério, que deveria pautar a vida de todo cristão, era a inquietante pergunta: o que faria Cristo no meu lugar?

Com Site Dom Total

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