Entrevista com Pe. Agnaldo Junior – Por uma migração menos sofrida e mais humanizada

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À frente dos cinco escritórios do Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados no Brasil e do Projeto “Acolhe Brasil”, que interiorizou venezuelanos em 16 estados, Pe. Agnaldo Junior faz um balanço da experiência de acolhimento a migrantes

Por Janaína Santos

1) O Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados tem sido um parceiro estratégico nas ações de interiorização por todo o Brasil. Qual a importância dessa atuação, como uma resposta cristã, de acolhida, integração e amparo aos migrantes e refugiados, que chegam sem assistência ao país?

Pe. Agnaldo: A importância do nosso trabalho, primeiramente, é dizer a essas pessoas que não estão sozinhas. Elas têm companhia e estamos com elas. Creio que esse é o ponto mais importante do nosso trabalho: ser presença junto aos migrantes forçados e refugiados. Queremos que eles encontrem em nossos espaços um “ombro amigo” e a ajuda para o que precisam. De maneira que nossa atenção e recursos estejam à disposição deles.

Diante desse desafio global, somos mais um ponto de uma grande rede de instituições, que estão envolvidas na resposta as pessoas que se encontram na condição de mobilidade humana forçada ou mesmo como solicitante de refúgio.

Observando o contexto das migrações no mundo inteiro e o fluxo massivo de pessoas vulneráveis e necessitadas hoje na América Latina, à nossa porta, necessitamos ler essa realidade como um “sinal dos tempos” em que estamos todos convocados a dar uma resposta humanitária e cristã.

2) A situação no estado de Roraima é ainda bem complexa. Qual é a importância do trabalho que vem sendo realizado pelo escritório de Boa Vista, já que a localidade é um dos pontos cruciais do processo?

Pe. Agnaldo: O escritório do SJMR em Boa Vista, em Roraima, é onde está o maior desafio do nosso trabalho. Situado na região da fronteira, atendemos todos dos dias mais de cem pessoas, oferecendo a elas um espaço de escuta, informação, proteção e integração É esse o nosso escritório mais desafiador, não somente pelo número de pessoas que atendemos diariamente, mas pela complexidade dos casos que chegam e pela limitação dos recursos para uma atuação mais incisiva. Transbordam demandas e necessidades, mas com a expertise e valentia da equipe, tentamos fazer o que é possível e da melhor forma.

Boa Vista é um escritório com o qual tenho muito carinho, pois é onde está concentrado o maior número de pessoas vulneráveis devido a migração forçada. É onde também se dá a conexão com os demais escritórios, uma vez que a seleção e triagem dos venezuelanos que participam da experiência de interiorização ao longo do país é feita em Roraima. De lá é que eles seguem para as Casas de Acolhida nos outros estados brasileiros. Seja via os espaços de acolhimento que vamos conseguindo abrir, seja pela inserção laboral deles, por meio de empresas que contatamos desde Boa Vista e Manaus.

3) Como o SJMR avalia o Projeto “Acolhe Brasil” e quais foram os pontos positivos que decorreram dessa experiência?

Pe. Agnaldo: Ao olhar para as seis Casas de Acolhida que colocamos à disposição do projeto “Acolhe Brasil”, percebemos que realmente demos uma nova oportunidade para que esses pessoas pudessem recomeçar suas vidas no Brasil. Retirá-las da fronteira, onde viviam em uma realidade extremamente angustiante, com condições precárias, muitas vezes sub-humanas e com pouquíssimas oportunidades de trabalho e moradia digna, já é um grande ganho. Mas é preciso acompanhá-las e ajuda-las na integração local.

Todo esse trabalho e os bons resultados são possíveis graças a articulação de muitos parceiros, desde outras instituições da sociedade civil, Governo Federal, Agências da ONU e outros atores, que também cooperaram na interiorização. No entanto, gostaria de destacar a quantidade de pessoas que temos como voluntários, por todo país. São esses voluntários que apoiam nossas Casas de Acolhida, dedicam seu tempo e colaboram com o que podem para dar a essas pessoas a oportunidade de recomeço. Elas atuam nas diversas áreas (aprendizado do português, na mediação para o trabalho, preparação para entrevistas de emprego, indicação de cursos e capacitação profissional, apoio psicológico etc). Quero destacar e agradecer o serviço generoso de todos esses voluntários, que estão envolvidos nesse serviço aos venezuelanos e fazem todo o acompanhamento nas casas que abrimos na Bahia, Minas Gerais e São Paulo.

Oxalá que muito mais pessoas saíssem também da sua zona de conforto e pudessem encontrar um lugar onde possam desenvolver um serviço voluntário. Nesse contexto atual da migração forçada, com pessoas tão sofridas, ajudar a soprar nelas a esperança, a paixão pela vida e o desejo de não desistir dos seus projetos, sonhos e do seu futuro é uma grande contribuição. É bonito ver a quantidade de pessoas que estão direta e indiretamente empenhadas, para que tenhamos um bom resultado do projeto e, o mais importante, que a vida dos migrantes e refugiados seja transformada para melhor. Assim, deixo o meu agradecimento e reconhecimento por todo bem que os voluntários fazem no SJMR, mas sobretudo na experiência de interiorização dos venezuelanos.

Também preciso ressaltar a colaboração da nossa Rede Jesuíta no Brasil. Toda a articulação que estamos fazendo de norte a sul do país com a Rede Jesuíta de Educação, Rede Magis de Juventude e Vocações, Fé e Alegria, Paróquias e Igrejas, Obras Sociais, CVX e jesuítas nas etapas de formação. Estamos muito felizes com os resultados, porque toda essa junção de mãos tem sido o grande diferencial do projeto.

Comentário
  • Sônia Maria Facundo Barbosa
    responder

    Que Deus o Ilumine sempre Padre Algnaldo, o Sr é sem dúvidas enviado por Deus para ajudar esse povo sofrido

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