Diário de bordo: os estudantes jesuítas e as pessoas migrantes e refugiadas

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Estudantes dos cursos de filosofia e teologia participam de imersão junto às iniciativas de trabalho promovidas pelo Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (SJMR)

Por Dimas Oliveira, SJ

Uma das preferências de trabalho pastoral dos padres e irmãos jesuítas em todo o mundo é a de “caminhar com os pobres, os descartados pelo mundo, os vulnerados em sua dignidade, numa missão de reconciliação e justiça”. E entre as várias propostas de trabalho nesse campo está a de “ter um comprometimento com os migrantes, os deslocados, os refugiados, as vítimas de guerras e do tráfico de pessoas; com a defesa da cultura e existência digna dos povos nativos”.

É nesse sentido que o jesuítas, funcionários, colaboradores e voluntários do SJMR (Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados) desenvolvem suas atividades junto às pessoas migrantes e refugiadas em todo o Brasil. Com escritórios localizados em cinco capitais (Belo Horizonte, Boa Vista, Brasília, Manaus e Porto Alegre), o SJMR também atua em frentes de trabalho por diversas cidades do país. Por conta do programa Acolhe Brasil, que é o programa de interiorização do Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados, a entidade monitora o desenvolvimento de atividades com a população migrante em diversos estados como o acompanhamento das pessoas interiorizadas com suas questões relacionadas à trabalho, moradia e inserção na sociedade, entre outras atividades.

Sensibilizada com o envolvimento dos estudantes jesuítas com a questão migratória, a equipe jesuítica responsável pela formação dos novos companheiros de Jesus, como já vem fazendo há alguns anos, enviou um grupo de estudantes para algumas localidades do Brasil para participarem de uma missão de férias junto a essas pessoas migrantes e refugiadas. Ocorrida nos últimos meses de dezembro e janeiro, a missão serviu para inserir os estudantes jesuítas no contexto migratório e para que, de diversas formas, pudessem tocar a realidade desses “descartados pelo mundo” e “vulnerados em sua dignidade”.

Ação de graças no sul do Brasil

Parte do grupo esteve na região sul do Brasil para acompanhar o dia a dia dos migrantes e refugiados que foram interiorizados nas cidades de Itapiranga (SC), Chapecó (SC) e Guatambu (SC). Para o estudante Rodrigo Pinto (Teologia), o mais significativo da sua experiência de colaboração na cidade de Itapiranga foi a possibilidade dele ter sido testemunha do forte sentido de gratidão dos venezuelanos aos itapiranguenses pela acolhida recebida. “Tudo aconteceu no dia 22 de dezembro de 2019, num evento que os migrantes organizaram para comemorar um ano da sua chegada à cidade. Foi uma festa sem fronteiras que começou com um desfile e continuou com um festival cultural e gastronômico para agradecer a oportunidade de viverem com dignidade, depois de que foram separados de suas famílias por causa das situações difíceis em seu país de origem. Entre música, dança e muita partilha emotiva, entendi que não é suficiente a moradia e o emprego para viver, mas é necessário a criação de pontes culturais e comunitárias para sensibilizar e humanizar as fronteiras”.

Aldeman Neto, jesuíta, também esteve presente em Itapiranga para acompanhar a celebração de um ano dos primeiros migrantes venezuelanos à cidade.

O jesuíta Aldeman Neto, estudante de Filosofia, sentiu-se provocado, inicialmente, por imaginar ser “uma especial e exigente missão”, mas, ao final da experiência, o sentimento de apreensão foi trocado pelo de alegria por ter vivenciado momentos marcantes. “Era consolador ver a gratidão e a esperança nos olhos dos venezuelanos no festival de comemoração de 1 ano da chegada dos 30 primeiros (“Obrigado, Itapiranga”). Ainda me marcou muito o tão necessário trabalho em rede. O SJMR, a paróquia, as empresas, os órgãos civis e outras organizações buscavam juntos melhores condições de vida para aquelas pessoas. E eu, como jesuíta, concluí minha missão naquele chão com um desejo grande de continuar aprendendo com este “bravo Pueblo” e colaborando com essa missão que é do próprio Jesus”, conta.

Os migrantes venezuelanos que foram interiorizados na cidade de Itapiranga (SC) organizaram uma passeata para agradecer à comunidade pela acolhida realizada há um ano.

Segundo os estudantes Davi Caixeta (Teologia) e Eduardo Silva (Filosofia), que estiveram nas cidades de Chapecó e Guatambu para participar das celebrações do Advento nas comunidades e visitar as famílias, em especial as venezuelanas, “foi uma alegria e uma surpresa perceber a presença de Deus na acolhida e solidariedade das pessoas de Guatambu e Chapecó para com nuestros hermanos. Em nossas visitas, percebemos muita gratidão por parte dos venezuelanos. Entretanto, alguns desafios se apresentam como questões que necessitam de atenção. O aprendizado do português se faz bastante necessário, não somente para comunicação, mas para facilitar a integração dos venezuelanos na comunidade. Esta vai se dando nas relações que vão sendo tecidas com os brasileiros e com o acesso aos serviços públicos, visto que agora os migrantes venezuelanos são contribuintes e cidadãos da sociedade brasileira. Outro desafio se dá pelo desejo de trazer os familiares que ainda estão na Venezuela ou em outras cidades. Por estes apontamentos, o trabalho de uma pastoral dos migrantes necessita de fortalecimento e continuidade no acompanhamento do processo de interiorização. Nos dias que estivemos por lá, nosso coração saiu transbordando de gratidão e consolação pela partilha que recebemos de tantas famílias acolhidas e acolhedoras”.

O estudante Eduardo Silva (terceiro da esquerda para a direita), juntamente com Aldeman Neto e Rodrigo Pinto (na sequência) posam com mais dois migrantes venezuelanos em Itapiranga (SC). Na segunda imagem, Davi Caixeta e Eduardo Silva.

“Situação insustentável”

Outra realidade migratória, que foi visitada pelos estudantes jesuítas, foi a da cidade de Manaus (AM), que desde 2016 tem recebido um grande fluxo de migrantes venezuelanos, em especial os migrantes indígenas, da etnia Warao. Para lá, foram os estudantes Renilson Tomaz e Wesley Oliveira, ambos alunos do curso de Filosofia. Em seu relato, Renilson conta como os migrantes indígenas (“ou o termo correto seria indígenas migrantes”, questiona) vivem em um conjunto residencial que serve de abrigo: “composto por cinco blocos de dois andares, o abrigo acomoda cerca de 500 indígenas que vivem em pequenos apartamentos onde dezenas de pessoas amontoadas compartilham o espaço bastante limitado, muitas vezes, com famílias diferentes.

Frequentemente, a intensidade da convivência dos migrantes indígenas em condições precárias no abrigo em Manaus faz com que as pessoas entrem em conflito, resultando em brigas e confusões e, consequentemente, a intervenção da polícia.

Existe água somente no primeiro bloco, sendo necessário o transporte em baldes para os demais blocos e nos andares superiores. O esgoto a céu aberto em frente ao prédio, a muita sujeira, o lixo, o mau cheiro e a superlotação fazem do abrigo um lugar que causa náuseas ao primeiro contato. Tais condições precárias e desumanas acirram os ânimos e causam conflitos constantes entre famílias, resultando na expulsão dos que incorrem nas constantes brigas. As mulheres e crianças pedem dinheiro nas ruas do centro de Manaus, uma vez que, já na Venezuela, grande parte dos Warao vivia da mendicância nas cidades. Crianças e adolescentes se encontram sem escola e sem perspectiva de vida, alguns já foram cooptados pelo tráfico e ameaçados por dívidas com o tráfico de drogas. O alcoolismo vem completar o quadro difícil do abrigo coletivo, notificado como “situação insustentável” pelo Ministério Público Federal em 2019, com recomendações de transferência para acomodações por família feitas ao Governo Estadual e Municipal. Nenhuma ação ou melhoria até o momento”. Para o estudante Wesley Oliveira, ressoou um forte apelo de prestar adequada assistência aos indígenas Warao ou, ao menos, de trazer à reflexão crítica e maior inclusão nos serviços prestados pelo SJMR à causa indigenista e migratória. “Tal reflexão que pude fazer está impregnada da experiência vivida e sentida na interação com o povo Warao. Constatei que muito há o que se fazer humanitariamente em benefício de nossos irmãos migrantes indígenas! Há a necessidade de uma abordagem e de um acompanhamento especializados porque suas culturas e estilos de vida são singulares”, conclui

Os estudantes Renilson (na primeira imagem, é o segundo, da esquerda para a direita) e Wesley (o último, da esquerda para a direita) em dois momentos: no primeiro, com um dos caciques do abrigo Warao em Manaus e sua família, e, no segundo, em uma comemoração de aniversário de 15 anos de idade de uma adolescente indígena residente no abrigo. Na segunda imagem, nota-se a presença do Ir. Arquelino, religioso jesuíta atuante pastoralmente no abrigo com os indígenas da etnia Warao em Manaus (AM).

Segundo o estudante Renilson Tomaz, “a experiência de estar ao lado de um grupo humano tão fragilizado e empobrecido, fez-me sofrer a impotência diante de um quadro complexo com atores múltiplos. Sentia-me muitas vezes indignado e revoltado, mas, ao fundo, consolado ao encontrar o próprio Cristo, como nos diz o Papa Francisco: ‘(…) se ousarmos ir às periferias, lá o encontraremos: ele já está lá. Jesus antecipa-se no coração daquele irmão, em sua carne ferida, em sua vida oprimida, em sua alma sombria. Ele já está lá.’ A consolação provinha do estar exatamente onde o Senhor me pede: ao lado dos excluídos e descartados deste mundo. Pois é, justamente por eles, que o coração misericordioso do Senhor bate mais forte: o amor universal de Deus se intensifica onde a miséria desumaniza.”

Cine Fórum promovido pelos estudantes Renilson e Wesley, para as crianças indígenas em Manaus (AM).

Emoção, força e esperança

Em Boa Vista (RR), estiveram os estudantes de Teologia Calisto Colo e Isaías Silva, que colaboraram como voluntários no serviço de documentação e nos diversos outros tipos de atendimentos oferecidos pelo escritório do SJMR na capital roraimense. Em sua experiência, Calisto conta que ela foi extremamente significativa: “conhecemos muitas histórias de vida e de viagens dos migrantes, que caminharam centenas de quilômetros até chegarem a Boa Vista. Alguns viajaram com a família inteira, alguns foram separados de seus entes queridos pela situação em que se encontram (…)”. Para ele, “a curta experiência com o SJMR mostrou aos jesuítas em formação o significado de estar nas fronteiras, trabalhando com aqueles que estão mais necessitados, e colaborando com os outros no processo de reconciliação consigo mesmo, com os outros e com Deus. Traz consolação ver sorrisos de esperança no rosto de cada migrante e refugiado quando são atendidos pelo escritório do SJMR Boa Vista”. Segundo o estudante Isaías, esse tipo de serviço o fez conhecer trajetórias, anseios e sonhos de diversas pessoas, que diariamente passam pelo escritório: “acredito que alguns rostos permanecerão em minha memória por algum tempo”.

O estudante Isaías (o primeiro da esquerda para a direita) em atividade juntamente com os migrantes e refugiados em Boa Vista (RR).

Isaías também conta como foi uma experiência que ele teve junto aos migrantes e refugiados: “nós voluntários religiosos, Calisto e eu, e Stella, leiga missionária, com alguns colaboradores ajudamos a organizar um momento celebrativo de Natal com os migrantes. Em um dos momentos da celebração, foi sugerido para que cada um dos participantes escrevesse um pedido ou agradecimento e o colocasse no presépio com a imagem do menino Jesus. Consideramos que este seria um momento rápido e que nem todos iriam aderir à proposta, entretanto, foi um espaço onde os migrantes tiveram livremente a oportunidade de escrever à vontade seus agradecimentos e intenções para suas vidas. Foi uma celebração de muita emoção, força e esperança”.

Para registrar em imagens o trabalho do SJMR em Boa Vista (RR) e em Manaus (AM), o estudante de filosofia Dimas Oliveira se deslocou para essas cidades no mês de janeiro e se dedicou a produzir o vídeo institucional da entidade, que agora entrará na etapa de montagem e edição. Dimas conta que ficou extremamente consolado a cada entrevista ou saída para captação de imagens ao constatar como a Companhia de Jesus e a Igreja vão agindo e chegando às fronteiras humanas e existenciais. “Me comoveu o testemunho dos membros da equipe do SJMR e dos migrantes, que abriram suas experiências de vida em uma relação de confiança. Muitos se disseram tocados pelo “jeito de ser” jesuítico e pela espiritualidade Inaciana. Ao ouvir isso fiquei contente. Nas minhas saídas fotográficas, visitei a realidade das mulheres em situação de prostituição, em Boa Vista, numa interação promovida pelo projeto chamado de Coexistência Pacífica por meio de promotores comunitários, que abordam as mulheres oferecendo chocolates a elas e, a partir desse contato, conseguem ajudá-las ao oferecer orientações sobre como obter documentação, matricular seus filhos na escola, entre tantas outras necessidades”. Em Manaus, Dimas também visitou o abrigo dos indígenas Warao e em sua experiência ele acredita ter tocado o Cristo pobre como nunca tinha tocado antes. “O trabalho com os  migrantes e refugiados me desafia, me faz sonhar, me faz cada vez pequeno diante de uma imensa realidade complexa, desoladora, mas impregnada de Deus também”, comenta.

O estudante jesuíta Dimas Oliveira desenvolveu um trabalho de produção de imagens da atuação do Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados na região norte do Brasil.

Competentes, conscientes e comprometidos na compaixão

É de se notar pelas tantas realidades e pela continuidade do aumento do fluxo migratório, que essa situação está longe de chegar ao fim. Os jesuítas e todas as pessoas envolvidas no serviço às pessoas migrantes e refugiadas, em suas ações por todo o Brasil e em diversos países do mundo, estão tentando responder ao imperativo que deveria ser de todo cristão e cristã, que é o de “ser homens e mulheres para os demais”, como dizia o fundador do SJM, padre Pedro Arrupe, SJ, há quarenta anos.

Os jesuítas que estão em formação, por sua vez, têm a oportunidade de, por meio desse tipo de imersão, não só tornarem-se pessoas cada vez mais humanas, mas também de se formarem como líderes no serviço e no seguimento de Cristo Jesus, sendo homens competentes, conscientes e comprometidos na compaixão com os mais sofredores. “Isso representa o implacável compromisso da Igreja em salvar as vidas dos migrantes, para poder acolhê-los, protegê-los, promovê-los e integrá-los”, conclui Francisco, o primeiro papa jesuíta que pode comprovar em seu processo formativo o que o fundador da ordem, Santo Inácio de Loyola, trazia como um dos traços de sua espiritualidade: “o amor consiste mais em obras do que em palavras” (EE 230).

1 Pedagogia Inaciana – Uma Proposta Prática, São Paulo, Loyola, 1993.

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