Ainda existe fé e esperança…

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Acompanhe os depoimentos e conheça as histórias de venezuelanos assistidos pelo SJMR, que trazem à tona a complexidade de sentimentos compartilhados por quem foi forçado a deixar seu país.

por Janaína Santos

Madeleyn Solsiree Grimont Sifontes – São Paulo (SP)

Ex-supervisora de imagem e publicidade de uma grande loja na Venezuela, Madeleyn Sifontes decidiu sair sozinha do país e teve de enfrentar longas noites dormindo nas ruas de Boa Vista, até conseguir uma vaga no projeto do SJMR.

“Meu percurso para chegar até São Paulo foi muito difícil. Por ser mulher e estar sozinha, me senti muito vulnerável. Passei semanas dormindo na rua e até para isso tem que saber como fazer. Ficava no terminal de ônibus, pois tinha a presença de policiais, o que me dava uma certa segurança. No entanto, a situação era de insegurança total. Foi então que conheci duas primas, que estavam na mesma condição e passamos a ser três pessoas; assim, nos ajudávamos mutuamente para conseguir comida e dormir com mais tranquilidade. Quando soubemos do projeto de interiorização do SJMR, ficamos felizes com a possibilidade de sair de Boa Vista. Ao sermos chamadas para a viagem, haviam apenas duas vagas, mas éramos três mulheres. Como as duas primas haviam feito a travessia juntas, cedi a vaga para que elas fossem e voltei a estar sozinha em Boa Vista. Foi muito doloroso estar só novamente, mas tudo correu bem e, semanas depois, conseguiram uma vaga para que eu também pudesse sair de Roraima e vir para São Paulo”, descreve.

Hoje, Madeleyn já deixou a Casa de Acolhida Dom Luciano e conseguiu reunir parte da sua família no Brasil. Recentemente, recebeu seu pai e seu marido, encontrou trabalho como cuidadora de idosos e já pôde alugar sua própria casa. No entanto, ela mantém firme a esperança de trazer sua filha de 11 anos, que ainda se encontra na Venezuela.

A migrante conta que se pergunta, todos os dias, como será o futuro. Mesmo com tantas incertezas, ela mantém firme a esperança em relação ao que ainda está por vir. “Hoje sou cuidadora de idoso e vivo uma experiência muito bonita. Quero me preparar para o futuro, estudar para ser técnica de enfermagem e me estabelecer aqui no Brasil, com minha família e minha filha, que ainda segue na Venezuela. Só Deus sabe o tempo em que estarei aqui, mas meu coração sempre estará na Venezuela”, conclui.

Jaxoni Pacheco Delgado – Belo Horizonte (MG)

Em Belo Horizonte, o casal Jaxoni Pacheco Delgado e Jose Gregorio Gonzales Rodriguez retoma a vida com os filhos. “Meu marido fazia parte da polícia nacional, comandava 2200 homens e tinha uma carreira sólida como advogado. Para não ir contra os nossos irmãos venezuelanos, decidimos sair do país. Inicialmente saímos apenas nós dois e tivemos que deixar as crianças para que terminassem a escola. O Brasil foi o primeiro país que passou pela nossa mente, pela ajuda humanitária e possibilidade mais rápida de recomeço. Por oito meses estivemos em Boa Vista, eu trabalhando com venda de comidas e ele descarregando carretas. Se não estivéssemos juntos, não teríamos dado conta, mas nos reanimamos todos os dias e graças a Deus tomamos essa decisão de vir. Conseguimos trazer as crianças e conhecemos pessoas que estavam fazendo o processo para sair de Roraima pelo SJMR. Por um tempo ficamos no abrigo e, em seguida, fomos integrados ao projeto. Chegamos em Belo Horizonte, já temos trabalho e damos graças a Deus todos os dias por essa nova oportunidade. Toda a equipe do SJMR, desde Boa Vista, foi parte muito importante nessa trajetória. Agora estamos orgulhosos, porque somos lutadores e podemos. Aqui estamos e vamos adiante”, afirma Jaxoni.

O casal quer “fazer a vida” no Brasil, mas esperam que a Venezuela possa, algum dia, voltar a se reestabelecer e receber novamente os venezuelanos que se espalharam pelo mundo. “Estamos muito agradecidos com esse país e com todas as pessoas que nos têm oferecido apoio e ajuda. Mas não podemos esquecer quem somos e de onde viemos. As raízes são as raízes. Isso não se esquece”, encerra.

Sandrimar Del Valle Ugas Cavrillo – Montes Claros (MG)

A família de Sandrimar é uma das muitas que chegaram ao Brasil por Boa Vista e se depararam com a falta de estrutura da cidade para receber tantos venezuelanos. “Eu era estudante de Comunicação Social em Maturín. Eu trabalhava e estudava ao mesmo tempo, mas a cada dia a situação se tornava mais difícil na Venezuela, com a falta de comida e escassez de tudo. Assim, decidimos emigrar para o Brasil. Meu marido veio antes e teve que enfrentar uma longa jornada de três meses vivendo nas ruas de Boa Vista. Ele não tinha dinheiro, nem familiares ou conhecidos na cidade, e o grande volume de pessoas necessitadas impossibilitou uma ajuda nesse início. Até que um brasileiro e outro venezuelano o acolherem e, com três meses de gravidez, eu também pude vir. Era uma grande decisão a ser tomada, mas pensei no bem-estar do meu bebê. Meu filho nasceu no Brasil de cesariana, e passei meu resguardo dormindo no chão, sem poder me levantar e tentando me recuperar, num lugar com muito mofo e sem condições de viver. Quando conseguimos contatar o SJMR, fomos cadastrados para a interiorização e, graças a essa ajuda, chegamos a Montes Claros (MG). Há muitos venezuelanos em Boa Vista e com necessidade de migrar para outros estados, mas graças a Deus o SJMR viu a nossa situação e nos cadastraram. Agora temos três meses de vivência em Minas Gerais, estamos abrigados e com todo apoio necessário. Pensamos grande para o futuro da nossa pequena família. Que não falte nada para nosso filho. Pedimos sempre em nossas orações por todos os nossos irmãos venezuelanos, sobretudo os que estão em situação de rua, para que consigam casa, alimento e trabalho. Só de pensar que nós temos o que comer, mas a minha família não tem, me sinto mal. Ser emigrante não é fácil, é deixar sua família, é deixar tudo. Sinto que me falta algo no coração”, diz Sandrimar, que vive com o marido Noe Chacin Hernandez e seu filho na cidade de Montes Claros.

“Os migrantes e os refugiados (…) não chegam de mãos vazias: trazem uma bagagem feita de coragem, capacidades, energias e aspirações, para além dos tesouros das suas culturas nativas, e deste modo enriquecem a vida das nações que os acolhem”.

Papa Francisco

Beisi Carolina Guzman Acosta e Francisco Javier Centeno Cova – Camaçari (BA)

Professora especialista em línguas e literatura, Beisi Carolina Guzman Acosta deixou a Venezuela com os dois filhos. Ela relata que, mesmo tendo trabalho estável na cidade Maturín, não havia mais como continuar no país. “Eu nunca havia pensado em deixar meu país. Eu decidi sair primeiro com as crianças e cheguei a Boa Vista, pois lá já estava a minha mãe. Como era período de férias, viemos com esse intuito, mas resolvemos ficar, em vista da situação crítica do país. O salário já não bastava para comprar comida, além de não suprir nossas necessidades básicas. Quando chegamos ao Brasil, vimos que as coisas aqui estavam diferentes e tentei buscar uma estabilidade, sobretudo de trabalho. Agora que fizemos parte do projeto de interiorização do SJMR e estamos na Bahia, temos essa oportunidade maravilhosa de recomeço. Esperamos que algum dia possamos retribuir e ter o privilégio de servir. Estaremos sempre de coração aberto para receber outros venezuelanos”, afirma.

“Nem todos têm a delicadeza e a gentileza de fazer a obra que o SJMR realiza. Só fazem por obra de Deus e por causa dos mais necessitados no mundo. Desde Boa Vista, com os voluntários, todo grupo do SJMR é uma experiência única em nossa vida. Não temos como agradecer a todos que se encarregaram de nos receber aqui na Bahia. São muito amáveis, se colocaram a serviço e estão sempre atentos conosco. Me sinto bem e esperamos que outras pessoas possam vir e receber o mesmo carinho. Para nós, o mais importante agora é o futuro dos nossos filhos”. F

Pedro Jose Rodriguez GarciaCapim Grosso (BA)

Pedro José Garcia deixou Boa Vista e veio com a família recomeçar a vida em Capim Grosso, Bahia. O venezuelano conta que, com o recurso que havia economizado, conseguiria chegar ao Brasil, que era o destino mais perto da Venezuela. “Meu filho ia à escola sem comer, muitas vezes, e não tínhamos trabalho nem comida. Assim, decidimos buscar um futuro melhor para nossa família e pretendemos ficar aqui o tempo que for necessário, até que nosso país volte a nos dar condições de viver. O SJMR nos ajudou muito a sair de Roraima, pois haviam muitos migrantes em Boa Vista, e as possibilidades de recomeço eram poucas. Agora, estamos passando muito bem aqui no município de Capim Grosso, e tem sido um momento de muitas bênçãos, harmonia e prosperidade para nossa família”, afirma o imigrante, que vive com a esposa e o filho de três anos.

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