Artigo especial: “Mulheres migrantes e os desafios à integração”

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*Por Luyandria Maia, Oficial de Proteção e Mayra Soares, Psicóloga Comunitária do SJMR em Boa Vista.

A partir de 2016, devido à crise política, econômica e social da Venezuela, Roraima que faz fronteira com o país, vem acolhendo migrantes e refugiados. Segundo relatório do Subcomitê Federal Para Recepção, Identificação e Triagem dos Imigrantes (Migração Venezuelana) publicado em janeiro de 2022, das 689.694 entradas de venezuelanos no Brasil entre janeiro de 2017 e janeiro de 2022, 47% correspondem ao perfil de mulheres e 53% de homens. Diante deste dado e levando em consideração as discussões sobre a feminização das migrações, percebe-se a exponencial migração de mulheres venezuelanas para o Brasil.

Migrantes e refugiados da Venezuela migram devido a grave e generalizada violação de direitos humanos e no contexto da rota migratória, mulheres venezuelanas estão mais vulneráveis às violações de direitos. Em busca de melhores condições de vida, as mulheres migram sozinhas ou em sua maioria, com filhos pequenos (famílias monoparentais) e enfrentam variadas formas de violências. Atualmente, o grande gargalo no que diz respeito à integração de mulheres migrantes, é a garantia de empregabilidade diante da realidade do perfil de mães solo.

Segundo pesquisa realizada pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), ONU Mulheres e Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) publicado este ano, diante dos dados coletados em abrigos e com pessoas que foram interiorizadas no período de março de 2021 e abril de 2021 (aplicação de 1000 questionários), 52% de homens são beneficiários da estratégia de interiorização e 48% são mulheres. No programa de Estratégia de Interiorização, 54% das mulheres entrevistadas são interiorizadas por meio de reagrupamento familiar e somente 30% são deslocadas com vaga de trabalho garantida.

Diante destes dados e analisando as especificidades de ser mulheres migrante, percebe-se que no processo migratório essas mulheres compõem a força de trabalho majoritária na área de cuidados e desvalorizadas nas atividades de esfera privada. Em solicitações de empresas para contratação de pessoas, o número de homens é superior ao número de mulheres.

Além da interiorização como forma de integração laboral, outra opção é o empreendedorismo. Das iniciativas empreendedoras que foram apoiadas pelo Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (SJMR), em Boa Vita/RR, as atividades das mulheres migrantes empreendedoras são, em sua maioria, do setor alimentício. Segundo Onogifro Euclísio, Analista Social do setor de Meios de Vida, as mulheres migrantes enfrentam dificuldades diferenciadas em comparação às dificuldades enfrentadas por homens migrantes. Ele conta que mulheres migrantes empreendedoras precisam conciliar o tempo de trabalho com o cuidado dos filhos, o que dá margem à tripla jornada de trabalho. Além disso, a xenofobia contra venezuelanos é um agravante, pois existe a possibilidade de não ter aderência da comunidade local, e a dificuldade no acesso aos recursos investidos nas atividades empreendedoras, em que essas mulheres só conseguem apoio quando participam de projetos impulsionados pelas organizações que compõem a Operação Acolhida.

Em 2021, visando apoiar a integração de migrantes venezuelanos em Roraima, o SJMR desenvolveu projeto em parceria com ACNUR denominado Green Jobs, que consistiu nas seguintes modalidades: empreendedorismo, com foco em iniciativas de empreendedorismo de migrantes venezuelanos em Boa Vista/RR e a modalidade de empregabilidade voltada para interiorização. Das pessoas beneficiadas cerca de 9 homens e 2 mulheres receberam apoio para iniciativas de empreendedorismo. Das duas mulheres apoiadas, as iniciativas consistiam em produtos de cosméticos e alimentício. Das pessoas interiorizadas, foram 27 homens e 1 mulher.

É importante destacar que, o projeto visou iniciativas de empreendedorismo focadas em sustentabilidade e das pessoas interiorizadas, as empresas que demandavam o perfil. Segundo Thaisa Freitas, assistente de projetos que atuou no setor de meios de vida, a equipe realizou sensibilização das empresas no que diz respeito à contratação de migrantes e refugiados, sobretudo, ressaltando a importância da contratação de mulheres migrantes para atenuar as desigualdades de gênero nos ambientes de trabalho. Embora os empregadores passassem por essa sensibilização, sempre demandavam perfil de homens para as vagas disponíveis e isso se evidência no dado do projeto, em que somente uma única mulher foi contratada, sendo que a meta era 50% contratação de homens e 50% contratação de mulheres.

Portanto, mesmo com todas as dificuldades, algumas organizações que atuam na Operação Acolhida, com o SJMR Brasil, desenvolvem projetos com foco na integração de mulheres migrantes no mercado de trabalho com intuito de promover o empoderamento de mulheres migrantes. Além disso, a atuação dessas organizações na sensibilização de empregadores do setor privado, constitui papel importante no árduo caminho da redução das desigualdades de gênero.

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