Artigo: Os reflexos do “inverno amazônico” frente as doenças respiratórias, Covid-19 e os desafios do acesso à saúde para migrantes e refugiados em Manaus (AM)

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*Artigo de Ludimili Lira
Coordenadora do SJMR em Manaus

Entre os meses de novembro a maio, ocorre o período chuvoso de Manaus, conhecido como o “inverno amazônico”. Esse tempo é responsável por elevar o índice do aumento de casos de síndrome gripal no estado. No último trimestre de 2021, os casos de Influenza A, principal responsável por gripes e resfriados, aumentaram significativamente no Amazonas. Em todo país, uma nova variante surgiu, a Influenza H3N2, com surtos e aumento de contágio em vários estados. Além desses fatores, o período de festividades natalinas também acaba gerando um maior risco de transmissão de vírus relacionados às doenças respiratórias.

Foi partir da primeira semana de janeiro que diagnósticos de H3N2 e da variante Ômicrom da Covid-19 começaram a surgir de maneira mais frequente, com sintomas parecidos com as gripes sazonais, dificultando, assim, a identificação do vírus, além de serem altamente contagiosas. Partindo de uma nova onda, a prefeitura de Manaus, juntamente com o governo do Amazonas, criou centros de testagem em alguns pontos da capital amazonense e também no interior, como forma de identificar os contágios rapidamente e realizar as medidas de isolamento necessárias. Com isso, um ano após o Amazonas registrar o maior colapso no sistema de saúde no país, o estado bate o recorde de casos de Covid-19 sendo registrados – mais de 7.505 novos casos da doença.

Nesse novo cenário, foi necessário, novamente, que algumas instituições retomassem a modalidade de teletrabalho (home office), com os atendimentos presenciais suspensos, com o SJMR em Manaus. O comércio e, por consequência, as vendas também foram afetados, pois grande parte dos trabalhadores desse setor foram diagnosticados com Covid-19.

Ainda vivendo sob os reflexos da pandemia e com a crise no sistema de saúde de 2021, as empresas de diversos segmentos sentem o peso de mais uma onda que afeta o trabalho e a economia do estado. Migrantes, solicitantes de refúgio e refugiados mais uma vez são impactados pela pandemia. O comércio é conhecido pela facilidade na contratação de mão de obra, seja ela temporária ou por comissão. Mas nem sempre é possível ter a carteira de trabalho assinada. Então, diante do novo cenário, migrantes que trabalham no segmento comercial são geralmente os primeiros a serem retirados do quadro de empregados. Quem tem seu próprio negócio também percebe que as vendas ou a busca por serviços sofreu uma queda, além do adiamento do ano letivo, que também movimenta bastante as vendas do comércio. Empresas de outros segmentos que ainda não estavam seguras, acabam tendo que fazer redução de custos para amenizar suas contas. Então, o número de desempregados aumenta ainda mais, principalmente na capital amazonense.

Grande parte do público migrante também tem dificuldade de conseguir se regularizar no Brasil. Com o aumento de casos de Covid-19 na cidade, muitos dos trabalhadores humanitários que atuam em campo também foram diagnosticados com Influenza ou a própria Covid-19 e, portanto, com a baixa do atendimento humanitário, aumentou consideravelmente o fluxo de trabalho para outra parte das equipes e a espera para atendimento ficou ainda maior.

O esquema vacinal incompleto ou nenhuma dose da vacina tomada, além da ausência do cumprimento das normas da Organização Mundial de Saúde (OMS) são os principais motivos que causam transtornos e perdas na vida de empregadores e empregados, sejam eles migrantes e refugiados ou da cidade em geral.

A maior parte das internações por Covid-19 é de pessoas não vacinadas ou de pessoas que tomaram somente uma dose da vacina e não quiseram completar o esquema vacinal por medo das reações ou influenciadas por Fake News, que durante a pandemia cercaram a todos.

Nos atendimentos presenciais ou remotos identificou-se que grande parte da população migrante atendida tomou somente a primeira dose da vacina e se recusou a tomar a segunda por medo das reações. Outra parcela não se vacinou por estar indocumentada e há também os migrantes que desistiram de tomar a vacina e não se imunizaram e pessoas com dificuldade de acesso à informação que não sabem onde as doses são aplicadas.

Outro ponto que vale ressaltar é que para qualquer tipo de atendimento no serviço público de saúde é necessário ter o cartão do Sistema Único de Saúde (SUS), porém, devido à alta demanda, muitas unidades básicas de saúde não estão fazendo a emissão do cartão. Portanto, vários migrantes acabam voltando para suas casas sem nenhum tipo de atendimento médico ou, quando são atendidos, não recebem a explicação de que alguns medicamentos são oferecidos gratuitamente nas farmácias das Unidades Básicas de Saúde (UBS).

Cada desafio citado também afeta o retorno às atividades do cotidiano, fazendo com que a situação de vulnerabilidade que o público migrante enfrenta se torne ainda mais extrema, pois falta emprego, alimentação adequada, medicamento e, principalmente, orientação clara.

Para 2022, é necessário que a rede que acolhe migrantes e refugiados no Amazonas tenha suas atividades reconhecidas por outros órgãos necessários para a boa articulação, bem como o poder público esteja aberto a fortalecer vínculos que podem ter sido diminuídos devido aos grandes desafios causados pela pandemia desde 2020. Mas é necessário compreender qual o papel de cada um frente a esses reflexos que poderão continuar por mais tempo, assim como também é necessário unir forças para sensibilizar a população da importância da vacinação contra a Covid-19 e das demais doenças existentes no mundo. Somente assim, se pode ver um vislumbre do retorno da economia, de novas oportunidades de emprego e da própria capacitação profissional, fazendo com que a luta por uma vida mais digna seja um pouco mais próxima da realidade.

Comentários
  • LIVIA MARIA MAGALHAES SOBRAL
    responder

    Excelente artigo. Fica a reflexão a respeito dessas questoes que raramente vemos em pauta.

    • Janaína Santos
      responder

      Agradecemos seu retorno.

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