Artigo: A acolhida de migrantes em terras mineiras

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Por Wesley Heleno de Oliveira*

Em 15 de fevereiro, pela primeira vez, Minas Gerais acolheu trinta e sete pessoas venezuelanas em situação de migração forçada, por meio de um programa organizado: “Acolhe, Minas”. São homens e mulheres, pais e mães, filhos, avós e netos e até um bebê de um ano; estudantes e profissionais liberais, que face a crise política agravada na Venezuela, cruzaram as fronteiras – antes de uma delas ser cerrada – para buscar meios dignos de subsistência e melhores formas de ajudar aos seus que ficaram para trás.

A iniciativa não se deveu ao mérito do governo do Estado mineiro, nem de alguma secretaria municipal belorizontina. Uma inédita ação da sociedade civil organizada liderada pela ação profética dos Jesuítas, somado a parcerias de instituições como Universidades, Organização Internacional para Migrações (OIM), Forças Armadas Brasileiras e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) teve a ousadia de arcar com a responsabilidade, gastos e esforços, para iniciar processo de interiorização programada de venezuelanos de Boa Vista para terras mineiras. Ante a inércia do Estado, alguns cristãos e pessoas de boa vontade

A situação é complexa e delicada. Para sermos francos, devemos reconhecer que a reação inicial de brasileiros, alguns boa-vistenses, não desconheceram expressões xenófobas nem evitavam infelizes atos isolados de violência contra os venezuelanos que adentravam desordenamente em sua Capital. Do mesmo modo, outras pessoas e certos grupos, conterrâneos roraimenses, recebiam em sua própria casa uma, duas pessoas ou mesmo uma família inteira de venezuelanos, partilhando pão, teto e esperança. Deste gesto solidário, fui alegre testemunha na capital de Roraima. A tradução encarnada do Evangelho “… tive fome e me destes de comer… era estrangeiro e me acolhestes.” (Cf. Mt 25, 35).

O programa “Acolhe, Minas”, liderado pelo Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (SJMR) interiorizou trinta e sete venezuelanos em terras mineiras; desembarcaram do avião da Força Aérea Brasileira, em Confins, na noite do dia 15 de fevereiro. E acolhidos em três Casas de Acolhimento, onze foram recepcionados na Casa de Acolhida Pe. Pedro Arrupe, da Paróquia jesuíta em Montes Claros; catorze homens desacompanhados de mulher e filhos, foram acolhidos na Casa do Migrante, pertencente a Arquidiocese de Belo Horizonte, no Centro de BH; e doze pessoas, formando três famílias, foram recebidas na Casa de Acolhida Sto. Alberto Hurtado, no bairro Campo Alegre, esta uma residência de estudantes jesuítas preparada e destinada pelos Superiores da Companhia de Jesus para acolher migrantes.

A metodologia do “Acolhe, Minas” prevê acolhimento em Casas inseridas no meio urbano, semelhantes a uma residência familiar. Mantêm unidos os núcleos familiares. O tempo previsto do programa define três meses de total assistência psicossocial e completo suprimento das necessidades básicas dos migrantes. Dá-se ênfase a preparação e encaminhamento para oportunidades de trabalho registrado. Na prática, contas de água e luz, alimentação, vale transporte, elaboração e impressão de currículos, agendamento e encaminhamento para entrevistas de emprego, curso de português para estrangeiros são assumidos pelo SJMR.

O plano é que em três meses os migrantes estejam em condições de retomar sua vida com plena independência, em Minas Gerais, abrindo assim espaço nas Casas para novos processos de interiorização. A lista de espera para interiorização no SJMR-Boa Vista já ultrapassou os quatrocentos inscritos.

Menos de duas semanas depois da acolhida, sete dos nove adultos da Casa Alberto Hurtado já estavam inseridos em trabalhos. A Faculdade Jesuíta de Teologia e Filosofia (FAJE) contratou duas das mulheres venezuelanas recém-chegadas, com carteira assinada.

Podemos fazer diferentes leituras deste fenômeno da migração forçada – seja pelo incômodo, seja pelo altruísmo – a primeira é a leitura política: a Venezuela e os venezuelanos sofrem grave crise socioeconômica, impingindo crise humanitária.

O governo chavista de Maduro não parece ser mais capaz de fazer frente aos embargos econômicos internacionais. E sua reeleição, interpretada como ilegítima, fez acender o curto pavio da bomba que já estava por explodir.

Contudo, só a leitura política não ilumina suficientemente a condição vulnerabilizada dos venezuelanos. Numa leitura de fé, como a fez Papa Francisco, podemos falar de um verdadeiro “sinal dos tempos”: a migração não é fenômeno novo na história da humanidade. Tanto nos textos sagrados de diferentes religiões quanto nas páginas da história geral lemos narrativas de migração em busca de sobrevivência ou promessa de melhor de condição de vida. Em todos os casos, um denominador comum parece ser a “provação” ao longo do caminho e na chegada às terras estrangeiras.

A leitura de fé acerca da realidade de migração e do refúgio, interpela o crente à uma resposta de fé e de humanidade: “O estrangeiro que habita convosco será para vós como um compatriota, e tu o amarás como a ti mesmo, pois fostes estrangeiros na terra do Egito” (Lv 19, 34). Isto significa acolher e integrar o irmão forasteiro em suas necessidades.

Recentemente o Superior Geral da Companhia de Jesus, Arturo Sosa, por ‘teocidência’ ele mesmo cidadão venezuelano, atualizou e redefiniu as preferências apostólicas universais para a missão dos jesuítas. A segunda das quatro delas diz expressamente: “Caminhar junto aos pobres, os descartados pelo mundo, os vulnerados em sua dignidade, numa missão de reconciliação e justiça”. A atitude missionária dos jesuítas, onde quer que esteja, deve cooperar ativamente no processo de integração dos empobrecidos, dos migrantes em situação de vulnerabilidade, defendendo e promovendo seus direitos humanos.

Papa Francisco apontou-nos quatro verbos que deveriam povoar nossos pensamentos e orientar nossas ações apostólicas, em favor de toda pessoa em situação de migração forçada; são estes: acolher, proteger, promover e integrar.

Acolher. Nós devemos nos empenhar em priorizar a entrada em segurança e legalidade do estrangeiro. A prioridade da dignidade pessoa, imagem de Deus, deve sobrepujar a segurança nacional. Garantir-lhes acesso aos serviços básicos necessários. Proteger. Conjuga ações em defesa dos direitos como facilitar o pedido e processamento do refúgio ou de residência temporária; expedir documentos nacionais como RNE (Registro Nacional de Estrangeiros), CPF e Carteira de Trabalho. Promover. Verbo que nos impele a trabalhar na promoção de todas as dimensões que tornam a pessoa um verdadeiro ser humano. A liberdade do exercício profissional com as qualificações que recebeu em seu país de origem; a prática livre da religião professada. Operacionalizar programas de inserção laboral, com averiguação pertinente da idoneidade e condições do trabalho iniciado. E integrar. Este verbo visa estimular e enriquecer o encontro intercultural dado nas relações entre os povos e suas línguas e culturas. O SJMR há tempos mantém o Curso de Português como Língua de Acolhimento para Estrangeiros. Isto porque o migrante e o refugiado alcançam maiores oportunidades de emprego e inserção social quando está disposto a aprender nossa língua portuguesa e dialogar com as culturas brasileiras.

Ainda no campo da integração do SJMR, o atendimento psicossocial é trabalho tão necessário quanto delicado. É recorrente verificarmos marcas de sofrimentos no corpo e traumas psíquicos na fala dos migrantes. Enquanto psicólogo, escuto histórias de perseguições, de escassez de mantimentos, de carências materiais as mais diversas, acompanhadas do sentimento de medo e insegurança em relação aos familiares que permaneceram no país de origem. A oportunidade de poder dizer sua dor, num espaço de escuta especializada e confidencial, já é terapêutico pois gera clima de acolhimento que alivia tensões e possibilita ressignificações do presente vivido.

Nosso atual desafio – não somente de religiosos ou de leigos engajados no acolhimento de migrantes estrangeiros –, mas de toda a sociedade belorizontina é aprender a conjugar os quatro verbos da vida: acolher, proteger, promover e integrar para tornar o estrangeiro “nosso compatriota”, afinal somos todos peregrinos nesta Terra e filhos do mesmo Pai.


*Wesley Heleno de Oliveira, SJ é jesuíta em formação, graduado em Psicologia pela Universidade São Judas Tadeu (São Paulo) e Licenciado em Filosofia pelo Centro Universitário Assunção (São Paulo). Atualmente, é mestrando em Filosofia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Trabalha pastoralmente no campo da Integração do SJMR BH, coordenando o Curso de Português como Língua de Acolhida para Estrangeiros e em atendimentos psicológicos aos migrantes e refugiados atendidos pelo SJMR BH. E-mail: culturabh@sjmrbrasil.org

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